Imagens Com História II


Era já noite escura e ela esperava-o à porta do trabalho. Ela, jornalista aspirava ao bom jornalismo, a tornar-se numa das já muitas mulheres a fazer história no jornalismo. Todos os dias esperava que a fosse buscar. Ele, quando demorava um pouco mais, chateava-se, não de maneira espalhafatosa, mas chateada porque ela gostava dele, preocupava-se com ele e, o chegar tarde dele era muito complicado para ela. Perguntava-se o que andaria a fazer, se lhe teria acontecido alguma coisa, ou o pior de todos os cenários, teria tido um acidente. Não, nunca teve um acidente e essa noite tornar-se-ia diferente.
Ela trazia vestido um lindo vestido vermelho tendo por todo ele quadrados pretos pequenos, a saia ligeiramente acima do joelho fazia parte do vestido. Arregaçara as mangas devido ao calor que a emoção do trabalho causava e era dessa maneira que ela o esperava. Não estava frio nem calor, estava uma bela noite agradável. Ele chegara 20 minutos mais tarde e passava já das sete e meia da noite. Ele apresentou-se bem vestido. Camisa azul clara arrumada por dentro das calças de um tom bege e sapatos casuais. Saiu do carro e com um sorriso no rosto disse-lhe "Desculpa a demora meu amor, tive de arranjar umas coisas à última da hora. Espero que gostes." Ela ficou completamente confusa. Deu-lhe o beijo com carinho, mas com um turbilhão de pensamentos na cabeça.

Levou-a a um restaurante, não, não era daqueles chiques, era daqueles restaurantes onde as pessoas realmente comem sem pagar muito. Um restaurante que ainda está para existir, um restaurante com aspecto elegante e bem cuidado, onde o empregado sabe o que vende, onde a simpatia leva a criar um laço forte entre o restaurante e as pessoas que o visitam.

«Porque viemos aqui comer?» - Perguntou-lhe confusa. 
«Porque quero que esta noite seja especial. E porque TU és especial Inês» - Disse-lhe ajudando-a a sentar. 
«Estás a aprontar alguma!» - Disse puxando o sobrolho para baixo.

Ela olhou em volta e tudo aquilo lhe parecia ser demasiado caro e, perguntou. «Tens dinheiro para isto tudo? Como conseguiste uma mesa aqui? Isto parece caríssimo, e demasiado elegante, e se eu soubesse ter-me-ia arranjado!» Disse chateada. Inês era uma rapariga simples, muito decidida e fiel aos seus sentimentos. Era uma rapariga que não tinha vergonha das suas origens e, muito menos, de sujar as mãos e estragar as unhas quando ajudava os avós durante as férias de verão, mas mesmo assim gostava de se arranjar.

Comeram bem e pagaram pouco. Ao entrarem no carro disse-lhe ele que ainda havia mais uma surpresa, que essa surpresa foi o motivo pelo qual ele se atrasou tanto. Dirigiram-se para casa e ao chegar, pediu-lhe que abrisse a porta. Ao abri-la deu de caras com um presente, uma caixa retangular e fina com papel de aniversário. - «Abre! Espero que gostes!" Ela segurando as lágrimas que faziam de tudo para lhe cair no rosto vermelho, correu para a caixa abrindo-a como se fosse uma criança. E quando desembrulhou o presente deixou correr bochecha abaixo saindo-lhe na ponta do queixo as lágrimas que já não conseguia segurar. Levantou-se e sorriu limpando o rosto com a manga do casaco dele. Beijou-o. Não o beijou como de todas as outras vezes, desta vez beijou-o de uma maneira especial, tal como aquele beijo estranho e carregado de tanto amor, de tanto carinho que se dá no altar, ou ao filho que é colocado nos braços de uma mãe depois de nascer. Naquele momento o seu coração alterou a pulsação, a respiração tomou outro ritmo e, na sua cabeça, todos os males, todos os medos, todos os pesadelos que a faziam recuar alguns passos, desapareceram. E se não desapareceram esconderam-se bem. 

 Ela, de nome Inês veio a tornar-se numa excelente escritora. Ele Joaquim, é hoje eletricista numa pequena empresa que criou com um primo. O presente, foi um portátil, a ferramenta de trabalho que ela tanto desejara e que a veio ajudar a tornar-se melhor profissional.

Imagens Com História I

Bitterness by NataliaDrepina
Margarida ajoelhou-se diante de um pequeno grupo de flores e, delicadamente colheu uma. Quando se tentou levantar sentiu não ter forças, pois ver o rosto pálido do Avô deixou-a abatida e preenchida por um sentimento estranho que lhe causava dores de barriga e um desconforto ao respirar. O rosto rapidamente ficou vermelho, os olhos doeram-lhe das lágrimas gélidas que lhe queimavam o rosto, mesmo que os fechasse elas teimavam em sair sem sinal de pararem. O pequeno pingo que lhe quase ia saindo do nariz foi fungado com profunda força evitando assim que algo mais lhe saísse do corpo a não serem as lágrimas que já tanta dor lhe causavam.

Augusta, amiga de infância de Margarida saíra de perto dos pais para acudir a amiga. A mão com que Margarida segurava a flor foi violentamente arremessada contra o chão, desferindo um murro na terra. A mesma terra que naquele momento queria engolir o seu Avô, o homem que tanto sorriso lhe dera. Augusta alcançou-lhe a mão ferida e raivosa com ternura, tentando de alguma maneira mostrar-lhe que não iria sofrer sozinha, ela estaria ali até aquilo acabar e se fosse preciso ficaria mais tempo com ela.

Augusta ajudou Margarida a recuperar o seu pé e caminharam as duas em direcção ao caixão, onde com tanta ternura e um nó na garganta lhe deixou, Margarida, um último sinal de amor e carinho pelo homem divertido, carinhoso e amigo que fora[1].

Foi aquele dia o primeiro dos que estariam para vir no resto da sua vida. Margarida tinha então sete anos e o Avô fora a primeira pessoa a morrer-lhe na família.

Legendas
[1] : Fora
Significado = http://www.priberam.pt/dlpo/fora
Conjugação = http://www.priberam.pt/dlpo/Conjugar/ser (Pretérito Mais-Que-Perfeito)